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Imagem: DeviantArt – Free – NadavDov





Ela acordou mais cedo do que o normal naquela manhã. Ainda estava escuro quando levantou.
Vestiu o roupão sobre o pijama, caminhou devagar até a cozinha, tomou um copo de água e acendeu o primeiro cigarro do dia.
Olhou para a cachorrinha, deitada no canto, dormindo. Pensou em acordá-la, mas acabou desistindo.
Esmagou o cigarro no cinzeiro.
Foi tomar seu banho. Enrolou-se na toalha, abriu o guarda-roupa e, sentando-se na cama, escolheu o que usaria. Secou os cabelos, vestiu-se.
Ia arrumar a bolsa quando decidiu que hoje seria “o” dia. Não podia mais evitar. Não podia deixar que mais um dia sequer passasse sem que transformasse a vontade em atitude. Trocou-se rapidamente, vestindo um jeans, camiseta e tênis. Foi até o outro quarto e pegou a mala. Colocou nela o que achava ser realmente necessário: algumas peças íntimas, mais camisetas, tênis, todo o dinheiro que tinha no momento, os cartões do banco.
Andou lentamente pela casa, despedindo-se… Na sala, olhou o aparador cheio de porta-retratos. Sua vida, em pequenas molduras de madeira. As lágrimas escorreram lentamente em seu rosto enquanto revia pedaços falhos de vida. Não levaria nada. Não queria lembrar-se de mais nada.
Subiu, abriu as grandes portas da sacada e viu a cidade. Escura, fria, vazia. Como ela estava. Entrou e deixou a porta aberta atrás de si. Não importava mais se a chuva molhasse o chão, a poeira invadisse aquela sala. A chuva já a molhara demais. A poeira a entorpecera por muito tempo.
Desceu, escorregando a mão lentamente pelo corrimão. Sentou-se no penúltimo degrau e olhou ao redor, como se procurasse um motivo para fazer isso. Não encontrou nenhum novo, além daquele que já conhecia há tempos.
Levantou-se e entrou em seu quarto. Seu quarto cor-de-rosa. Como ela achava que sempre seriam as coisas. Não foram. Mas voltariam a ser, para ela.
Fechou a mala, lentamente, com as mãos trêmulas. Novamente fez o percurso até a sala, depositando-a perto da porta. Olhou o quadro, escolhido com tanto carinho, as plantas. Lembrou-se de casa vaso plantado, das longas horas ajoelhada no chão. Longas horas perdidas…
Entrou no banheiro e olhou-se no espelho. Nada mais era o que pensava. Nem mesmo seu rosto. Era o de uma estranha, agora. Rosto de recomeço.
Hesitava entre sair de uma vez ou repassar cada cômodo. Achou a última opção dolorida demais. Lembranças lhe davam medo.
Mas… Uma coisa precisa fazer antes de sair, de vez, dali. Precisava se despedir de uma pessoa. Uma única pessoa. E tinha que fazer logo, pois o dia clareava e logo ela acordaria. Se acordasse, não a deixaria sair. E sua coragem, tão miseravelmente acumulada, acabaria com ela acordada.
Pela última vez entrou no quarto. Ajoelhou cuidadosamente sobre a pessoa que ali dormia. Passou, lentamente, a ponta dos dedos em seu rosto. Uma lágrima desceu. No mesmo instante em que, no rosto de quem dormia, outra também surgiu, mesmo em sono profundo, como se soubesse que a separação estava acontecendo. Aproximando bem o rosto, sussurrou:
- Estou partindo. Em sua vida, hoje, não há mais lugar para mim. Em sua vida, hoje, não há espaço para a alma aventureira que tinha. Você mudou. Eu não…
Ergueu-se e, antes que perdesse definitivamente e coragem, foi embora.
A porta fechando dividiu espaço com o som do despertador. E ela acordou cedo naquela manhã, como sempre fazia durante a semana. Vestiu o roupão sobre o pijama, caminhou devagar até a cozinha, tomou um copo de água e acendeu o primeiro cigarro do dia.
Olhou para a cachorrinha, deitada no canto, dormindo. Pensou em acordá-la, mas acabou desistindo.
Esmagou o cigarro no cinzeiro.
Entrou no quarto do filho, para acordá-lo e foi tomar seu banho, já pensando no que tinha a fazer durante todo o dia. Sentiu falta de algo. Nada material. Faltava algo nela. Algo que, há muito tempo, não sentia viva dentro de si. Sua alma. Sua alma aventureira.


Autoria:
Sandra Pontes

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Somente um.


  1. Anna on July 3, 2008 1:28 pm

    Lindíssimo, San!
    AMEI.
    Beijo
    Anna

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