Não me recordo de minha primeira palavra ou do primeiro passo. Ainda bem! Deve ter sido um fracasso total. A língua enrolada, um “sandrês” intraduzível. E o primeiro passo? Desajeitado, incerto, trançando aquelas minúsculas pernas presas por panos e panos da fralda – sim, eu sou do tempo da fralda de pano – tropeçando e trombando em tudo e em todos.
Mas o primeiro dia na escola eu lembro. Não chorei. Não tinha motivos para chorar. Era numa salinha longe do prédio oficial, pois havia muitos alunos naquele ano, cheia de crianças para eu conhecer e brincar.
Lembro-me também da primeira vez que fui ao Playcenter. Como era a única pirralha entre os amigos da minha irmã, me colocaram na frente no carrinho da montanha-russa. Odiei! Chorei de medo. Depois, mais velha, nas excursões do colégio lá do interior, eu saia quase no tapa para sentar no primeiro banco, ainda dentro do ônibus.
Meu primeiro campeonato de vôlei. Tremia tanto, mas tanto no primeiro jogo, arquibancada cheia e gritando o nome do time, que achava que não ia conseguir. O juiz apitou e pronto! O medo foi embora junto ao primeiro toque na bola.
E nada tão apavorante quanto o primeiro beijo! No auge dos meus 14 anos, o primeiro namorado. Eu enrolei, juro! Tentei fazê-lo mudar de idéia, mas não consegui. Júlio foi insistente demais. Que coisa horrível! Foi… Foi… Uma merda! Eu tentava escapar e ele abraçava. Eu, morta de vergonha. Ele, persuasivo e paciente. Depois, fui pegando o jeito, esquecendo o primeiro e aprendi. A mesma coisa com a “primeira vez”, muitos anos depois. Dio santo! Nem quero lembrar!!!
Minha primeira vez “pilotando” uma moto. Adrenalina pura! Já minha primeira experiência com automóvel foi um fracasso total. Entenda-se por “fracasso” uma batida, dois carros amassados e uma bronca homérica.
O primeiro dia de aula na facu foi de festa. Já o do emprego, o primeiro emprego, foi de tensão. Lembro da roupa ainda hoje, quase 21 anos depois. Era a moda do azul Royal e saia jeans. Foi assim que despenquei no R.H. do Bradesco. Também teve meu primeiro dia de curso de programação, dentro do mesmo banco. Meu sonho! Andava de cabeça erguida, me sentindo a poderosa. Naquela época era sinal de status o crachá vermelho usado pelo pessoal do antigo D.P.D. E onde foi a primeira vez que saí de um emprego.
O primeiro carro. Era tão ruim, tão ruim que, quando o encostei na oficina, já deu morte cerebral. E dá-lhe retífica de motor, “cabritagem” na lataria. Ora, Sandra. Que termo! Só porque o golzinho entrou na oficina com a cor verde-água, modelo 82 e saiu verde-musgo, modelo 86??? Foi meu primeiro seguro… Mas teve meu primeiro 0 km. Ah, que vontade de dormir dentro dele! Que cheiro danado de bom!
A primeira vez que o Léo se mexeu, dentro da barriga. Foi num sábado. Eu estava deitada na cama, assistindo TV e o controle remoto sobre o ventre. E ele balançou. E de novo! E quando eu o vi pela primeira vez? Aquela “carinha de joelho”, todo vermelhinho, esticando a mãozinha minúscula para acariciar meu rosto? A primeira mamada dele, o primeiro banho… Não sei quem tremia mais: ele, de frio, minha mãe que me ajudava ou eu, na primeira intimidade com aquela coisinha pequena! O primeiro caminhar dele: eu o encostei na porta e pedi: “vem, filho. Vem aqui com a mamãe..” E lá veio ele, imitando meus primeiros passos desajeitados. A primeira palavra: “mama”. Cara!!! Eu chorava tanto ouvindo o “leonardês”…
A primeira noite em “nossa casa”! Como foi bom acordar cada qual em seu quarto. Até aquela noite, dormíamos num quartinho apertado no apartamento dos meus pais. Precisávamos de um canto só nosso. A carinha do Léo, ao ver o quarto dele todo arrumado, com o abajur de peixinho rodando e lançando sombras animadas nas paredes… Minha cama espaçosa. Um banheiro para cada um!
Mas hoje, especificamente hoje, foi uma “primeira vez” difícil de encarar. Foi o primeiro dia dos pais sem pai. No sábado enfeitamos seu “porta-corpo”. Muitas flores, escolhidas com carinho. Sabemos que ele não está mais lá, mas é uma forma de mandarmos a mensagem de que “não nos esquecemos de você, viu seu Azor???” Domingo. Ganhei o presente do dia dos pais, feito pelo Léo no colégio. Depois saímos para almoçar num restaurante cheio de carne, já que ele era vegetariano e nunca tínhamos ido lá. Não houve lembranças.
Mas haverá outras “primeira vez” até 17 de janeiro, quando completaremos o ciclo e aí, sim, poderemos respirar livremente. Sábado será meu aniversário e vai rolar o churras da família, aquele de todo ano, no domingo. Outra saia-justa. Final do mês, dia 30, seria o aniversário de casamento. 56 anos de vida em comum, quatro filhos, quatro netos, quatro “semi-netos”, uma bisneta. Setembro vai chegar junto com o aniversário dele. Outro nó na garganta. E ainda restam Natal e Ano-novo. Que merda dupla! E a gente supera…

Primeira vez. Algumas são inesquecíveis, outras, passáveis. Algumas a gente aceita. Muitas, a gente transforma em piada e vai revivendo-as e divertindo quem as ouve. Outras, a gente empurra goela abaixo, respira fundo, engole o choro e toca a vida. Mas todas importantes. Todas marcando fases, caminhos escolhidos e pessoas em nossas vidas.


Autoria:
Sandra Pontes


®
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8 Corajosos!!!


  1. marilia on August 12, 2007 6:39 pm

    EMOCIONEI.
    NÃO SEI COMO VIVEREI ESSA MINHA PRIMEIRA VEZ…
    QUERO QUE ELA DEMORE PARA CHEGAR.
    NEM AS PALAVRAS BELAS NOS FAZEM ESQUECER PESSOAS TÃO IMPORTANTE EM NOSSAS VIDAS.
    UM BJO SANDRA, E UM ABRAÇO APERTADO DE CARINHO.
    MARILIA

  2. alexandre on August 12, 2007 8:10 pm

    A primeira vez só acontece uma vez….que bom seria se pudéssemos ter o dom de fazer tudo melhor da primeira vez…!

    beijos!

  3. Erika on August 12, 2007 9:01 pm

    Se a gente pudesse nunca ter primeiras vezes como essas, né?

    Mas eu tenho certeza que é a primeira e não será a última, que ele te acompanha de onde quer que esteja, no outro plano.

    Beijos

  4. Kith on August 13, 2007 11:00 am

    Que lindo, amiga!
    Fiquei com os olhos cheios de lágrimas.
    Beijos

  5. Luma on August 13, 2007 11:57 am

    😥 Não pude deixar de me emocionar! Essa dor, pode ter certeza, não é a primeira que sente. Isso não é consolo mas são nessas horas que prestamos mais atenção no ciclo natural da vida e valorizamos tudo aquilo que acontece ao nosso redor. A saudade não vai embora, mas o tempo se encarregará de amenizá-la.
    Boa semana! Beijus

  6. Edu on August 13, 2007 3:14 pm

    Eu me lembro direitinho da primeira vez que te vi. Paixonite aguda do miocárdio à primeira vista!

  7. Suzi on August 13, 2007 6:36 pm

    Olá, Sandra!
    Boa noite.
    Desde ontem estou tentando deixar estampado no meu blog o teu selo de “Plágio é crime – Denuncie”, mas embora ele apareça, imediatamente após a alteração, ao carregar novamente a página ele desparece e fica somente aquele quadradinho com um “x” vermelhinho dentro. Troquei as aspas, como você disse, mas nada!
    Hoje tentei novamente váaaaaarias vezes. E terminei achando um jeito, que foi colar como imagem, mesmo, sem link. Não sei se você vai concordar. Mas eu realmente não consigo fazer de outro jeito. No IE aparecia o tal quadradinho. No Mozilla era como se nem houvesse nada. nem o quadradinho aparecia.
    Bem, aguardo um retorno seu, no caso de não autorizar o uso do banner sem o link, ou de haver um outro modo de exibir a imagem que faça referência ao seu blog.
    Parabéns pela campanha.
    Semana passada eu fiz um post indignado, depois de ver em ação uma plagiadora descarada.

    (Bem, naturalmente você não precisa publicar este comentário; na verdade, eu mandaria um e-mail, mas não achei um endereço. Dê um desconto, se ele estiver bem na minha cara; a razão de não encontrar pode ser o cansaço, mesmo. Há 12 horas trabalhando, digitando e tal… 😉 Desculpada? rs*)

  8. marilia on August 13, 2007 6:55 pm

    Oi sandrinha…voltei pra reler… tinha gostado tanto…e hoje achei o texto mais triste…
    deve ser eu…
    bjos

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