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Imagem: Cry – want2you – DeviantArt





Aquela casa. Aquela casa era única. Mágica e especial. Foi nela que nasci. Foi nela que aprendi a ler e escrever. Foi onde vivi meus oito primeiros anos. E foi nela que eu conheci e considerei minha família como “inteira”.
Meus irmãos, duas meninas e um rapaz, dividiam o mesmo quarto. Brigas por espaço, individualidade e privacidade. Eu dormia com meus pais. Casa pequena, simples. Nos fundos havia outra, onde moravam meus avôs paternos.
Foi naquela casa, pequena, que via minha irmã lavar calça jeans, estirada no chão, com vassoura. Para enxaguar, baldes de água e rodo. Era engraçado…
Foi naquela casa que eu tive meu primeiro animalzinho de estimação: um pintinho. Quando cresceu, foi parar no sítio de algum tio e nunca mais o vi.
Foi naquela casa, com um pé imenso de louro, que minha avó brigava com o filho da vizinha, achando que ele subia no muro pra roubar limão.
Foi naquela casa que o vizinho carroceiro gritava a plenos pulmões, quando meu avô, com esclerose, fugia para casar com uma senhora que tinha uma vaca e “vinte contos de réis”:
- D. Cida… Corre que o “véio” fugiu. – E lá ia minha mãe, desligar panelas para correr rua afora e buscá-lo.
Foi ali também que perdi meus dentes da frente, aos cinco anos. Travessura do irmão, que me achava igual boneca de pano.
E quando o bêbado mais temido da rua – Vitório – aparecia? Era uma correria só de crianças desesperadas para se esconder. Ele nos agarrava pelo braço, machucava. Morríamos de medo ele…
Meus avôs se foram… Meu pai decidiu vendê-la. Comprou uma maior. Um ano depois, perdemos minha irmã. Meu irmão foi trabalhar em outro estado. Minha outra irmã passou no vestibular, em outra cidade. A casa, que ele comprou para os filhos, esvaziou. Calou-se de risos, discussões, alegria.
Mudamos para outras cidades, moramos em várias casas, mas a “nossa” casa sempre esteve em seu lugar. A rua virou avenida, foi se enchendo de comércio e ela lá, firme. Sozinha.
Há alguns meses colocaram uma placa de “vende-se”. Até pensei em vê-la, passando-me por possível compradora. Minha irmã me fez desistir:
- San… Ela não está mais como você lembra. Se tiver medo de perder as lembranças, melhor não ir.
É… Eu ainda me lembro da geladeira e fogão vermelhos, do vaso azul em cima da mesa, com flores de plástico brancas. Lembro do sofá marrom, todo costurado e de botões. Lembro da lata de tinta, imensa, que guardava uma samambaia e que me serviu de escudo – só não calando o choro e gritos – quando meu pai, depois dos filhos crescidos e sempre de roupa social, passou na faculdade e chegou todo melado de ovo, farinha e café, uma saia horrível e colar de havaiana, no trote que recebeu.
E, todas as vezes que eu saia do estacionamento do supermercado, a via. Inteira, com sua imitação de lareira, em pedra, na parede frontal. O mesmo piso antigo e vermelho no chão da garagem. Mesmo mudando a placa para “vendeu”, ela ainda estava lá.
E a gente sempre acha que, quando algo acaba significa que outro algo começa… Nem sempre é assim. Hoje entendi que não é assim. A casa se foi. Sua frente foi tomada de tapumes rosa escuro. Não há mais portas, janelas, o corredor. Hoje, quando saí do supermercado, não a vi mais. Só restos de paredes. Marcas. Pilha de entulho do que foi, um dia, uma família completa.
O ladrilho vermelho da cozinha pode ter ido embora há anos, mas para mim ele ainda existia. Assim com existia a marca na parede, a falta de um pedaço que meu irmão, carinhosamente, quebrou com a minha cabeça, quando eu tinha três anos. Ele passou e esqueceu que eu estava em seus ombros.
Não existe mais a grade onde eu ficava pendurada, no final da tarde, esperando meu pai aparecer na esquina para correr ao seu encontro. Não existe também a lavanderia da casa do fundo, onde montaram uma casinha para eu brincar.
A única palavra que consegui dizer enquanto os olhos se enchiam de lágrimas foi:
- Acabou…
As mesmas lágrimas que deixo cair enquanto escrevo. Minha irmã se foi, meu pai se foi, mas a casa… Não. Ela ainda estava lá… Estava. Com lembranças. Com a sensação de que estávamos ainda todos juntos. Não está mais lá… Não estamos mais nela.
Acabou.


Autoria:
Sandra Pontes


®
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Comments


This entry was posted on Sunday, August 31st, 2008 at 10:37 pm and is filed under Crônicas & Contos. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

6 Corajosos!!!


  1. Anna on September 1, 2008 8:20 am

    O mais importante é que ela esteja sempre na sua memória.
    De lá ninguém poderá arrancá-la!
    Eu tb tenho muitas lembranças da casa onde morei (coincidentemente) nos primeiros anos de minha vida. Cada vez que vou para aquela cidade, paso naquela mesma rua e vejo a casa, cada vez com uma cor diferente, com alguma coisa “a menos”.
    Mas na minha memória está tudo registrado, do fogão e geladeira vermelhos até o gato de louça que ficava na estante da sala…
    São doces lembranças, que fazem bem à alma.
    Beijo
    (urb)Anna

  2. Anna on September 1, 2008 8:22 am

    O “(coincidentemente)” refere-se aos primeiros OITO anos de minha vida. Faltou o OITO!
    bjo

  3. Edu on September 1, 2008 8:45 am

    Faço minhas as palavras da Anna. Porque o amor que a família viveu ali, esse ninguém tira! E é o mesmo que eu vejo hoje na sua nova casinha/apto.

  4. Vivien on September 2, 2008 8:56 am

    Lindo texto, comovente, fiquei com um nó na garganta ao ler.

  5. NILSON BARCELLI on September 2, 2008 7:40 pm

    Presumo que o seu excelente conto seja baseado na realidade.

    A Sandra está enganada. A sua antiga casa de família continua a existir. Porque vc se lembra dela e porque agora ficou aqui bem instalada, com alicerces para uma vida. Pena foi que não tivesse colocado aqui uma foto da época com a casa.

    Beijinhos.

  6. paulo on October 22, 2008 12:14 pm

    Realmente não consegui analisar se está bem escrito. Mas lendo o artigo sobre sua casa e, de resto, sua vida, me vi com lágrimas nos olhos – sem pieguices – chapinhando no meu passado, que também teve uma casa vendida e irmãos que se foram, mesmo que apenas por deixaem de ser crianças.

    Foi então que comprendi: bela literatura. Lindo, lindo.

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